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Nos últimos 30 anos, Portugal mudou muito. A revolução de 1974, o processo de descolonização, a negociação e entrada na União Europeia e, mais recentemente, a adesão ao euro, marcaram profundamente estas três décadas e alteraram toda a estrutura económica do país. Mas o balanço final é positivo. Ao longo deste período, a economia portuguesa sofreu uma grande evolução e uma modernização acelerada. O nível de vida, medido pelo rendimento «per capita», aumentou 2 por cento ao ano e convergiu para a média comunitária, representando agora 65 por cento desta média, ou seja, mais 5 pontos que em 1973. Por outro lado, a protecção social alargou-se extraordinariamente, o horário de trabalho diminuiu, os indicadores sociais melhoraram a bom ritmo e as taxas de escolarização tiveram um aumento impressionante, colocando-se ao nível europeu.
Com o passar dos anos a economia abriu-se mais ao exterior e os empresários portugueses começam a investir no estrangeiro. O Estado aumentou a sua despesa em educação e saúde, o que fez crescer o peso do consumo público na despesa interna. Entretanto, a sociedade portuguesa começa a adoptar novos comportamentos típicos de países com um nível de vida mais elevado. A primeira «vítima» foi o mundo rural que aos poucos foi sendo substituído por um universo mais urbano e consumista. A taxa da poupança das famílias desceu de 24 por cento para cerca de 9 por cento do rendimento disponível e o respectivo endividamento aumentou muito, em especial nos últimos três anos.
As grandes mudanças atingiram também a estrutura produtiva. E, enquanto o peso dos serviços aumentava, os sectores da indústria, construção e da agricultura e pescas foram perdendo terreno. Em relação ao emprego, o sector terciário também foi valorizado em detrimento do primário e do secundário.
Por seu lado, as indústrias tradicionais começam a ser substituídas por sectores com mais elevado nível tecnológico, como as máquinas e o material de transporte, sendo hoje o que detém maior peso na indústria nacional.
A economia portuguesa conseguiu adaptar-se a impactes negativos como os dos choques petrolíferos e dos efeitos da descolonização, sem quedas insuportáveis do nível de vida nem aumentos incomportáveis do desemprego, embora tenham sido os salários reais a suportar o essencial dos ajustamentos. Tem tido, contudo, muito mais dificuldade em adaptar-se ao choque global actual.
É no entanto importante salientar que o processo de redução da inflação, necessário para aderir à moeda única, atingiu plenamente os seus objectivos. Por seu lado, a adesão à CEE foi um sucesso e o país soube aproveitar bem os fundos comunitários, em particular no que respeita às infra-estruturas. E, em especial à construção de estradas que permitiu uma grande redução do tempo dos transportes terrestres, contribuindo para a maior comunicação entre regiões e para menores custos de transporte.

No entanto, estas grandes mudanças que atingiram a sociedade portuguesa trouxeram também desequilíbrios importantes e aprofundaram ainda mais as diferenças entre as novas gerações, com alto nível de escolaridade e com fácil acesso à informática e os mais idosos, com um fraco nível de instrução e com uma taxa de analfabetismo ainda elevada.
Outro dualismo que se foi aprofundando ao longo do tempo, é o que diz respeito à contínua desertificação económica e demográfica do interior de Portugal face ao litoral e, principalmente, às áreas metropolitanas. Nem a actuação geralmente dinâmica do poder local democrático, criado depois do 25 de Abril, nem as novas vias de comunicação têm sido suficientes para contrariar este processo.
Um sector que continua a evidenciar baixos níveis de produtividade e a empregar ainda 11,6 por cento do total do emprego nacional é o da agricultura, silvicultura e pesca. Com uma mão-de-obra relativamente idosa e com um nível de instrução inferior à média nacional, dificilmente estes trabalhadores poderão ser transferidos para outros sectores de actividade o que constitui um grave problema social.
Continua a verificar-se um grande desnível entre a produtividade média portuguesa e a comunitária. O crescimento da produtividade em Portugal tem sido insuficiente pesem embora os grandes investimentos em capital físico e humano, o que tem como consequência uma menor competitividade externa.
Finalmente, o tradicional défice comercial da economia portuguesa vinha-se agravando nos últimos anos, registando-se uma recuperação desde 2006 com um crescimento substancial das exportações. Contudo, o género de produtos exportados na sua maioria para países da União Europeia, estão a sofrer uma mudança significativa nos últimos anos, com o aumento do peso de sectores como o das máquinas e veículos e a redução de sectores mais tradicionais, como por exemplo, do vestuário e calçado, que diminuiu o seu peso de 30 por cento para 13 por cento do total das exportações nos últimos quinze anos.

Em relação aos serviços, o turismo, que corresponde a cerca de cinco por cento do PIB, continua a afirmar-se como uma actividade dinâmica de exportação, sendo responsável, juntamente com o sector das viagens, por um saldo líquido positivo na balança corrente de cerca de 2,7 por cento do PIB.
Por outro lado as formas de financiamento, sem encargos, dos défices da balança corrente com o exterior actuantes neste período - remessas de emigrantes e depois fundos comunitários - perdem peso em relação à dimensão da economia.
A sociedade portuguesa regista também, à semelhança de outras da UE, um processo acelerado de envelhecimento com o peso da população com mais de 65 anos a duplicar nos últimos trinta anos, um facto que origina uma grande pressão sobre o sistema de segurança social. Recentemente foram tomadas algumas medidas que garantem a sustentação do sistema por algumas décadas, mas a questão do envelhecimento continua a constituir um desafio difícil para a economia portuguesa principalmente porque coincide com as dificuldades competitivas acima referenciadas.
Neste contexto, a liberalização do comércio mundial, a ausência de política macroeconómica própria, a redução do peso de formas utilizadas no passado para o financiamento do défice comercial, como sejam as remessas de emigrantes e os fundos estruturais, e os efeitos polarizadores da própria integração europeia, reforçando o centro face às periferias, são os principais factores condicionantes a ter em conta.
No entanto, a impressionante capacidade que a economia portuguesa tem demonstrado ao vencer os difíceis desafios que nos últimos trinta anos se lhe têm colocado, fornece um bom apoio aos que pensam que saberá corresponder da melhor forma a estes novos desafios.
Fonte: «Retrato de Portugal» Texto adaptado do artigo "A Economia", de João Ferreira do Amaral
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